março 15, 2007

VALENTE

A revolta estala-lhe na voz quando diz que "O Padrinho é uma merda de filme sobre a Mafia". Francis Ford Coppola, explica, "mostrou-a simpática e fascinante". Com glamour à Hollywood. "E a Mafia é cruel, para nós é uma vergonha e uma ofensa". Letizia Battaglia sabe do que fala. Já perdeu a conta aos disparos à queima-roupa, aos carros armadilhados, às vítimas banhadas de sangue que fotografou para o jornal de Palermo L'Ora. Aos 72 anos, esta premiada repórter siciliana que transformou a câmara em arma de denúncia admite que já poucas forças lhe restam. O fardo "é demasiado pesado". E a luta, trava-a agora com exposições como a que ontem inaugurou em Lisboa.

Patente até 29 de Abril na livraria Libritalia (Rua do Salitre, 166B), "Paixão, Justiça e Liberdade" reúne 31 provas a preto e branco de três décadas de trabalho. Como qualquer jornalista, Letizia Battaglia não sabia o que cada dia lhe reservava. "Podia começar com as escolas, fiz muito futebol, teatro, música... E depois o telefone tocava e ia cobrir um assassinato, os feridos", conta ao DN.

"Sou muito mais do que a fotógrafa da Mafia. Mas nunca consegui libertar-me disso. Mesmo se tento fazer outras fotografias, o mundo não está interessado nelas", desabafa com um encolher de ombros.

A foto que denunciou Andreotti

Uma dessas fotografias - por sinal, "bem má!" diz a sorrir -, acabou por constituir prova contra o ex-primeiro ministro italiano Giulio Andreotti (então, já senador vitalício).

Em 1993, "a polícia fez buscas no jornal, para ver imagens de todas as vezes que Andreotti foi a Palermo. Descobriram que, numa espécie de festa eleitoral, havia uma feita por mim", esclarece .

As buscas estenderam-se a sua casa e aos 600 mil negativos do seu arquivo. Essa imagem de 1978, feita "por acaso", mostrava o homem que liderou sete governos da democracia-cristã italiana com um empresário e "demonstrou que frequentava a casa de mafiosos". Demasiado tarde. A prova prescreveu.

"O juiz era Roberto Scarpinato", recorda. "Trabalhou muito, durante dez anos, para que um homem horrível como Andreotti fosse para a prisão. Perdeu. E depois de ter perdido o caso, perdeu mesmo a cabeça... Havia três juízes e o mais jovem traiu-o. A sentença tinha de ser unânime."

Numa guerra que vitimou milhares de pessoas - de mafiosos de famílias rivais a magistrados, políticos, padres, jornalistas ou cidadãos que estavam no sítio errado à hora errada, Letizia Battaglia perdeu dois amigos juízes. Em 1992, ambos em carros armadilhados, e por ordem do temível padrinho Salvatore "Totò" Riina.

"No dia em que mataram o juiz [Giovanni] Falcone, disse que não queria mais fazer fotografias de gente assassinada. Mataram o juiz [Paolo] Borsellino e não peguei na máquina. Foi muito violento para toda a gente, mas sobretudo para mim. Era impossível continuar se as coisas não mudavam". As fotos mais duras, reconhece, são estas, as que nunca fez. Ao acender mais um cigarro, em pleno ataque de tosse, acredita-se que "não é fácil falar destas recordações".

A Mafia de colarinho branco

A eficácia da famosa Operação Mãos Limpas deixa-a "humilhada enquanto cidadã". Esta é uma guerra impossível de vencer sem "governos fortes e seguros", afirma. Com Silvio Berlusconi (primeiro-ministro em 1994 e de 1996 a 2001) houve "uma viragem política enorme". Alguma vez o fotografou? "Jamais o quis fotografar!", atira com olhar zangado. "O guardião da sua villa em Milão é um mafioso! Os colaboradores mais directos do seu primeiro governo foram arguidos por ligação à Mafia!"

Depois da morte de Falcone e Borsellino, diz Battaglia, a Cosa Nostra "fez um pacto com o Estado". "Não matou mais gente das instituições, mas tem o poder, controla as obras públicas". O cimento faz correr "rios de dinheiro". As grandes estradas, os hospitais ou o projecto da ponte para ligar a ilha da Sicília a Itália "têm o dedo da Mafia", acusa.

A fotógrafa fala de "poder político comprado", de "votos controlados pelos chefes dos bairros", de extorsão aos comerciantes em troca de protecção, de lavagem de dinheiro com os EUA e a América do Sul, de dealers dentro dos ministérios. "Dizem os especialistas que só o tráfico de cocaína é um negócio maior do que a Fiat".

A Mafia "mudou, adaptou-se, tem mais educação e representa-nos na política, veste fato e gravata". Os jovens não têm modelos e "estão desencorajados". A falta de instrução e o desemprego tornam apetecível o dinheiro fácil.

Letizia Battaglia está cansada. Sobreviveu aos roubos em sua casa e às ameaças de morte, mas não consegue libertar-se desta "prisão". Quer tanto "destruir" as suas fotografias que agora as usa para manipulações em que inclui nus femininos. "As mulheres são menos cúmplices com as coisas horríveis do mundo".

Leoluca Orlando, que presidiu à câmara municípal de Palermo entre 1985-1990 e 1993-2000 com o movimento antimafia La Rete - que a fotógrafa integrou como membro de Os Verdes -, é de novo candidato às eleições em Maio. "Se perder, vou para África. Não poderei continuar. Basta!", diz Letizia Battaglia.

(in Diário de Notícias de hoje)

Publicado por Killer Sentimental em março 15, 2007 12:01 PM | TrackBack
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