Para transformar a sua Pátria amada.
Oswaldo Payá
Opositor cubano
Nasceu em Havana, há 54 anos
Funda, em 1988, o Movimento Cristão de Libertação e, dez anos depois, desenvolve o Projecto Varela
Em 2002 recebeu o Prémio Sakharov atribuído pelo Parlamento Europeu
Um dos mais conhecidos opositores cubanos, responsável pelo desenvolvimento do Projecto Varela e do Programa Todos Cubanos, disse ao DN que nos últimos seis meses nada mudou em Cuba, a não ser o aumento da repressão contra a oposição. Confessando que ficou surpreendido com a passagem de poder de Fidel Castro para o seu irmão Raúl a 31 de Julho, Oswaldo Payá defende uma abertura pacífica para Cuba e apela à solidariedade internacional imediata para a libertação dos presos políticos, lembrando sempre que as mudanças têm de partir do interior da ilha. Numa entrevista telefónica, o opositor - que vive em Havana - fala na falta de informação sobre a saúde do líder cubano, considerada "segredo de Estado", e no medo que impera nas ruas.
Não mudou nada. A doutrina do Governo é de que não vai haver nenhuma mudança. E isso é que é grave, porque o povo cubano quer e precisa de mudanças agora. Precisa de uma abertura económica, de liberdade de movimento e de comunicação, de garantias no direito de expressão e associação, de um novo espaço na vida para que a nova geração não tenha de continuar dependente dos mecanismos de um poder absoluto e totalitário. O que mudou foi haver mais vigilância sobre nós, menos tolerância para os líderes dos movimentos de oposição. Há um ambiente de hostilidade e ameaça contra a minha casa e a minha família, houve uma agudização do cerco em nosso redor. Tudo porque estamos a propor uma saída pacífica para Cuba que é necessária agora.
Vivemos numa altura de incerteza, de espera sem esperança, onde o cidadão não pode falar do seu futuro nem fazer nenhum projecto de futuro. Esses projectos são movimentos cívicos, apoiados pelos cidadãos, mesmo no meio do totalitarismo. Para nós é um desafio apresentá-los, porque o regime procura impedir-nos, mas sabemos que a maioria dos cubanos que conhecem o Projecto Varela apoia este referendo que estamos a pedir e diz: "É isto que tem de acontecer". Uma mudança para que os cubanos participem na vida económica, política e cultural. Este é o Projecto Varela que, neste momento, é uma verdadeira alternativa para o povo de Cuba.
Responde às expectativas dos cubanos, porque ao contrário do regime, que diz que não há mudanças e fecha a porta ao futuro, defende que podem existir mudanças sem violência, como houve, por exemplo, em Portugal. Não estamos a falar de um golpe de Estado, estamos a falar de uma mudança cívica e pacífica. Mudanças sem violência, sem vingança, sem um falso neoliberalismo. Defendemos a educação e a saúde grátis, sem privatizações desenfreadas, mas com liberdade económica. Hoje, só os estrangeiros e alguns da nomenclatura podem ter negócios. Este programa é de uma grande dimensão conciliadora, humanista, social, mas também de abertura a todos os direitos dos cidadãos. Isso é possível a partir de um movimento cívico, que já começou, apesar de haver grande repressão e muito medo. Mas esta é a nossa luta pacífica.
Apesar de sermos perseguidos, sempre tivemos o espírito de não odiar as pessoas que estão no poder. Como cubanos, eles, seja Fidel Castro ou Raúl Castro ou quem quer que esteja no poder, têm a obrigação e a responsabilidade de facilitar estas mudanças. É uma necessidade vital e histórica da sociedade cubana, é um direito do povo de viver numa nova etapa de liberdade. Vivemos quase 50 anos em tensão, sob opressão, sob campanhas políticas onde as pessoas se convertem em bonecos. A nossa esperança é no povo e na solidariedade internacional, dos portugueses, dos europeus, de todos.
Apoio político e moral, não de intervenção, embargo ou bloqueio. O que queremos é solidariedade dos povos, dos parlamentos, das igrejas, dos trabalhadores, apoiando a libertação dos presos políticos que estão detidos por defender os direitos humanos e apoiando o referendo do Projecto Varela. Porque cada povo tem direito a que se lhe dê a voz para decidir o seu destino. Nós sabemos que quando se olha de longe para Cuba há a tendência para ver apenas a figura de Fidel ou Raúl. O nosso apelo é que não esperem que Fidel Castro morra. Há 11 milhões de cubanos a precisar agora de solidariedade internacional, no sentido de apoio e não de intervenção.
Sim. É a única maneira legítima. A partir de Cuba, entre cubanos, pacificamente. Lembre-se da África do Sul, foi uma alteração feita por sul-africanos, mas a comunidade internacional apoiou o diálogo e o referendo. Nós temos o nosso próprio caminho e a nossa própria realidade. Alguns confundem o nosso apelo à solidariedade com intervenção, ou com ditar programas e caminhos. Esses programas ou caminhos vamos ser nós a construí-los, apenas precisamos de apoio moral, que se levantem as vozes a favor da liberdade dos presos e para que se dê voz ao povo de Cuba, em favor do diálogo nacional que estamos a pedir.
O nosso exílio é parte inseparável do povo de Cuba e deve ter voz e direitos no seu país como cubanos. Mas não através de outros governos. Participando como cubanos no processo cívico quando for possível regressar e apoiando moral e politicamente este processo. No exílio, a maioria apoia o Projecto Varela e uma mudança entre cubanos, sem intervenção, pacificamente. Mas, há algumas pessoas e alguns grupos que têm umas posições de ataque à nossa linha de reconciliação e de mudança pacífica. Mas esses não representam a maioria.
Nós estamos abertos a esse diálogo, mas não como pessoas, grupos ou partidos que querem um pedaço do poder. Temos uma posição muito transparente: a lei deve transformar-se para dar direitos a todos os cidadãos e nesse sentido, para o conseguirmos, sem exclusão, sem ódio, estamos dispostos ao diálogo. Até agora nunca houve esse contacto e não creio que tenham a liberdade de o fazer. Nós sim, paradoxalmente, temos a liberdade de dizê-lo. Qualquer diálogo dever ser encaminhado para devolver ao povo o que é do povo, os seus direitos. Porque os cubanos também têm direito aos direitos.
Nós não temos de esconder a verdade. Foi uma surpresa. Mas, passada essa surpresa, há uma manipulação da informação. Um medo da mudança e do que pode acontecer. Os cubanos não são sequer informados. O nosso movimento não joga o futuro a pensar na morte de uma pessoa. Somos um movimento cristão. Mas o povo cubano tem direito à informação. Dizem que a saúde de Fidel é um segredo de Estado. Depois, aparece um médico em Espanha a dizer ao mundo o que o povo de Cuba não pode saber. Eu sou um opositor à política de Fidel, mas respeito os sentimentos da sua família e a ele enquanto ser humano. Porque é que os cubanos não têm direito a preparar-se para um novo momento? O povo está uma vez mais excluído e só pode estar na incerteza. As pessoas nas ruas comentam, mas muito discretamente, porque têm medo de falar do tema. A cultura do medo impõe-se.
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