Transcrevo, com a devida vénia ao DN, este artigo do passado dia 27:
«... ão tem escapado a ninguém o incómodo dos dirigentes do Bloco de Esquerda e do PCP perante a candidatura de Manuel Alegre, para já não falar do seu partido, que, se calhar, até se preocupa menos do pode parecer. O velho resistente anti-salazarista e deputado socialista, resguardado no Parlamento desde 1975, sem desgaste governativo, pode ser a novidade destas eleições presidenciais. Candidato a consciência moral do PS e com uma assinalável produção literária muito marcada pela portugalidade, Manuel Alegre começou por ser um projecto de candidatura oficial do seu partido, mas as circunstâncias de o velho fundador, Mário Soares, não querer perder o momento remeteram-no para uma alternativa à esquerda dos que não se revêem no regresso à ribalta do pai do PS.
Ainda no final da semana passada, o politólogo Philippe Schmitter reafirmava preto no branco no seminário "Pensar a Democracia", organizado pelo Presidente da República, que a restrição de escolhas é um dos dramas da fraca participação política em muitas democracias, em que os seus cidadãos se revêem pouco nos candidatos apresentados pelos partidos.
Nesta perspectiva, Manuel Alegre acabou ironicamente por ser a novidade destas eleições presidenciais. A sua candidatura apresenta desde logo uma marca de independência (ou dissidência conjuntural) em relação aos partidos e também de regresso à militância de intelectuais e quadros descontentes, que vão desde o PS aos "críticos" dissidentes do PCP. Apesar de Alegre ser, strictu senso, um "político profissional", este parece conseguir dar uma imagem de vítima das (e resistência às) piores características dos partidos e da classe política, espécie de "sempre em pés" nas instituições eleitas.
Em termos programáticos, Manuel Alegre conseguiu apresentar um manifesto que à falta de melhor expressão se poderia caracterizar de "patriotismo de esquerda", o que, numa conjuntura de globa-lização ameaçadora, estagnação económica, aumento de desemprego e escasso optimismo na União Europeia, enquanto motor do binómio integração-desenvolvimento, pode gerar alguma simpatia junto de faixas significativas do eleitorado de esquerda, como aliás os estudos de opinião têm revelado. Muito embora os segmentos do eleitorado que exprimem o desejo de votar Alegre não tenham grande esperança de o ver eleito, a verdade é que a imagem e o discurso do candidato remetem para um "presidenciável" ideologicamente mais próximo de muitos indecisos de esquerda.
O "contrato presidencial" de Manuel Alegre, apresentando-se contra sonhos presidencialistas, reafirma no entanto o projecto de uma chefia do Estado forte e vigilante, mantendo "uma democracia moderna em que os direitos políticos sejam inseparáveis dos direitos sociais", o que, numa conjuntura de orçamento restritivo e cortes em todas as áreas, representa uma vantagem importante de captação de um eleitorado descontente com o Governo do PS. Entre programas que poucos lêem e discursos que muitos ouvem fica um candidato mais próximo das angústias de vários estratos sociais e dos descontentes com o regresso de Mário Soares.
Perante um Manuel Alegre no espaço turvo da resistência aos partidos tradicionais, os "candidatos de manutenção" Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, após o juramento de que não desistiriam à boca das urnas, têm alguma razão para temer transferências de voto, ficando reduzidos ao núcleo duro do seus eleitores. Todos os dados apontam para que este candidato morda com alguma eficácia no eleitorado do PCP e do próprio Bloco de Esquerda.
Resta o mais importante para Alegre, que é desafiar Mário Soares no eleitorado socialista e, sobretudo, nos indecisos desta área. Em termos de campanha, parece óbvio que ele vai sentir o que é "contactar com o povo" sem um aparelho partidário por trás, com os "notáveis" locais a não se quererem prejudicar, o que é uma verdadeira ironia para quem sabe tão bem como a máquina funciona. Mas as campanhas eleitorais reduzidas a umas visitas com pequenos discursos com 20 jornalistas ao lado ainda o vão ajudar e os debates televisivos serão bastante importantes. A sua sobrevivência e até bom resultado na área da esquerda nas próximas semanas, não sendo inéditos, vão servir de teste à volatilidade eleitoral desta área...» - António Costa Pinto