Quando nos apaixonamos
Poça d'água é chafariz
Ao olhar o céu de Ramos
Vê-se as luzes de Paris
No verão é uma delícia
A brisa fresca de Bangu
Mesmo um cabo de polícia
Só nos diz merci beaucoup
Eu ouço um samba de breque
Com Maurice Chevalier
Bebo com Toulouse-Lautrec
No bar do Caxinguelê
Daí ninguém mais estranha
O Louvre na Praça Mauá
E o borbulhar de champanha
Num gole de guaraná
Cascadura é Rive Gauche
O Mangue é Champs Elysées
Até mesmo um bate-coxa
Faz lembrar um pas-de-deux
Purê de batata roxa
Parece marron glacé
(Chico Buarque)
"Fôssemos infinitos, tudo mudaria. Como somos finitos, muito permanece".
(Bertolt Brecht)
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p'ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
(Sérgio Godinho)
Uns copos de tinto Margaça (Pias) reconciliaram-me com a vida.
Sem antibióticos.
(NOTA: Pequena pausa na dentição e há que dar atenção às insónias, embora neste caso tenha aproveitado a ler. Desde o princípio do ano, já vou no 13.º livro.)
E por falar em saudade, onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo que me deixou morto de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia nas noites dos bares de então
Onde a gente ficava, onde a gente se amava em total solidão
Hoje eu saio na noite vazia,
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nestes mesmos lugares
Na noite, nos bares, onde anda você
(Vinicius de Moraes)
Bagão Félix elogia e de que maneira o seu sucessor, um tal de Cunha. Está explicado.
VIVA O PODER POPULAR !
Três entrevistas que recomendo vivamente:
1)Saldanha Sanches ao DN Negócios de 28 de Fevereiro-«...o número de autarcas que exigem luvas é assustador...»;
2)Jorge Semprún ao DNA de 4 de Março-«...mas já não acordo de noite com a angústia de estar no campo de concentração...»;
3)Luis Sepúlveda à Sábado de 4 de Março-«...Na América Latina, vivemos uma época de esperança democrática, só possível porque os EUA andam ocupados noutros lugares...».
Pelo menos quatro.
Nos tempos que correm já não é mau: Santos Silva, Mariano Gago, Correia Campos e António Costa. Por favor, não me deixem ficar mal !
Os restantes ou tenho dúvidas, nalguns casos mesmo muitas dúvidas, ou, pura e simplesmente, não os conheço; a estes admito que sejam sérios.
Aguardemos pelo programa e pelas políticas.
Os nomes podem não dizer tudo. Mas acredito que digam muito.
Pois pois, era Mexia com Lopes e agora Pinho com Sócrates.
O Chico de Estação (do Algueirão) bem me tinha avisado «...eles andem aí, vizinho, eles andem aí...».
Pois é Chico,
ELES ANDEM SEMPRE AÍ !
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar do pão
Decepar a cana
Recolher a carapa da cana
roubar da cana a douçura do mel
Se lambusar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra propícia estação
E fecundar o chão
(Milton Nascimento)