Intriga-me o facto de os portugueses darem tanta importância a este dia e esquecerem as mais elementares regras da higiene.
Centros comerciais, paragens de autocarro, estações de comboio, por todo o lado se constata hoje uma profusão de cascas de castanha e copos brancos de plástico onde repousam algumas gotas de água pé.
Que raio, que raça (como diria a minha Avó Celeste) de gente é esta que só se lembra de incluir na sua dieta a castanha durante vinte e quatro horas por ano ?
No entanto, apraz-me registar o convívio em torno da castanha e da água pé, nesta sociedade cada vez mais afastada dos prazeres colectivos.
Porém, o meu S. Martinho é sempre uma data triste.
Em 1976 tive o meu primeiro contacto com a morte.
Efectivamente, com os meus treze anos, perdi o primeiro familiar próximo, o meu avô Manuel, enfermeiro dos Hospitais Civis, que fez a maior parte da sua carreira na cadeia de Monsanto.
Foi uma sensação de perda tão forte que posso afirmar, sem exagero, que foi a morte que até hoje mais me marcou.
O meu avô, e cito o Mário Zambujal, era um «bom malandro».
Não resisto a contar, resumidamente, uma história que se terá passado nos anos 40 no Caramão da Ajuda, local onde a família habitava na altura.
O senhor Chorão, era este o apelido do meu avô, decidiu vender uma banheira. Vai daí, coloca-a no quintal, com um letreiro de "VENDO".
Em poucas horas, um vizinho invejoso, há sempre muitos invejosos nos bairros de Lisboa, fez queixa à Guarda, instituição a que hoje chamamos GNR e que na altura todos os seus membros, é quase certo, desconheciam por completo a existência de uma nação chamada Iraque.
O Malaquias, assim se chamava o guarda da Guarda, pára em frente da casa do Chorãoe bate à porta.
A minha avó Maria, ao perceber que o Malaquias pretendia falar com o meu avô, vira-se para dentro de casa e e chama-o:
-Anda cá, Chorão, é o senhor Guarda Malaquias.
-Está bom, sôr (era do Fundão o meu avô) guarda?
-Oh senhor Chorão, então o senhor não sabe que não pode vender a banheira assim à porta de casa ?
-Vender a banheira, sôr guarda, mas quem é que quer vender a banheira?
-Senhor Chorão, mas está lá escrito VENDO.
-Pois está, sôr Guarda, é para as pessoas irem passando e irem vendo.
Escusado será dizer que zarparam os dois para a taberna mais próxima beber uns copos de três e, não tenho a certeza, comer castanhas.
Um abraço de saudade para o avô Chorão.