...NÃO ME ESQUEÇAM...»
Depois de ler as tuas descrições do norte de Portugal, tenho a certeza de que iremos aí, nem que seja um fim-de-semana, em busca do nosso quarto de dose. Muito belo, interessante e comovedor o que me contas de [Fernando] Pessoa. Sempre que puderes, fala-me dele. Tive, há muito tempo, uma colecção dos seus poemas, com quase todos os seus heterónimos, mas perdi-a num naufrágio matrimonial».
Este é um fragmento de uma carta escrita, no passado dia 15 de Janeiro, pelo poeta e jornalista Raúl Rivero e que me foi enviada da prisão de Canaleta, na província de Camaguey, a mais de 500 quilómetros de distância da sua residência, em Havana. Ali, o regime de Fidel Castro quis sepultá-lo em vida, com uma condenação de 20 anos de prisão.
Desde então, Raúl Rivero tem-se dedicado a ler muito e a escrever poemas de amor. Mas quatro desses poemas não puderam sair da cadeia porque as autoridades cubanas consideraram que eles não eram publicáveis.
Interrogo-me se algum deles será o que me referia na sua carta de 30 de Outubro de 2003: «Terminei há pouco um poema em que apareces tu, o magro Díaz [Jesús Díaz, cineasta e escritor já falecido, com vários livros editados em Portugal] e Pablito [filho de Jesús Díaz e actual director do diário independente «Cubaencuentro»] e eu. Tomamos uma garrafa de vinho num bar, por onde passa Pessoa com a sua pasta escura de burocrata».
O estado de saúde do poeta e jornalista Raúl Rivero, preso em condições infra-humanas, suscita preocupações.
Na sua carta de 11 de Novembro passado, confirmava-me que tinha sofrido dois ataques de nevrose, devido, evidentemente, à má alimentação e à falta de proteínas.
A esposa, Blanca Reyes, já advertiu os amigos de que já não poderão chamar-lhe O gordo Rivero, porque Raúl já perdeu perto de 30 quilos de peso. «Envelheceu muito, mas animicamente está muito bem», informava Blanca, em finais de Janeiro.
Mas, depois, tive notícias de que tinha estado algumas semanas internado num hospital, ou na enfermaria da prisão, e perdeu-se o ritmo das suas cartas, que iam chegando a Lisboa, à média de uma ou duas por mês.
Muito poucos dias antes de ser detido, Raúl Rivero tinha estado na minha casa em Havana e onde, ainda hoje, reside a minha mãe, «aquela senhora que me deu café e alegria» (carta de 30 de Outubro).
A mãe do poeta, que completou 84 anos em Dezembro, languesce e morre lentamente num cadeirão. Sozinha, fechada num quarto. O único irmão de Raúl, Humberto, vive em Toronto, no Canadá.
As sanções do regime de Fidel contra os dissidentes alargam-se sempre à família. Não lhe permitem visitar a mãe, assim como não permitem a Blanca Reyes que visite o filho que reside nos Estados Unidos.
Em declarações ao diário espanhol El País, a esposa do poeta resumia a situação numa frase: «Raúl Rivero está numa prisão pequena, e eu numa grande».
Em tempos, durante uma busca da polícia política a casa de Raúl Rivero, um dos agentes virou-se para a mãe e advertiu-a: «um dia destes, vamos voltar para o levar preso e a senhora não voltará a vê-lo porque vamos levá-lo para uma prisão longínqua».
Cumpriram a ameaça no dia 20 de Março do ano passado.
Desde que, a 16 de Fevereiro de 1999, foi aprovada a Lei 88, de Protecção da Independência Nacional e da Economia de Cuba - mais conhecida como a Lei Mordaça - que o poeta e jornalista, fundador, em 1995, da agência de notícias independente Cuba Press, sabia que podia ser preso e condenado.
A qualquer momento.
Por isso escreveu: «a letra da lei sobre a protecção da independência nacional e economia de Cuba permite às autoridades do meu país condenar-me pelo único acto soberano que realizei desde que tenho o uso da razão - escrever sem mandato.
O caminho que iniciei há alguns anos com a ruptura total com os meios de informação e de cultura do governo tem-me transformado num ser humano diferente, alguém que se libertou por sua própria conta, alguém que num ambiente ameaçador e hostil pôde iniciar o caminho para a liberdade individual».
E aí, cumpre 20 anos de cadeia, na sua província natal, o poeta que alimenta o sonho de, um dia, visitar o norte de Portugal e tirar uma fotografia junto à estátua de Fernando Pessoa, no Chiado.
Dos seus livros, nenhum está publicado em Portugal. Numa das minhas cartas, disse-lhe que iria tentar que a sua obra fosse conhecida dos portugueses.
Respondeu-me na sua missiva de 15 de Janeiro: «gostaria muito que se concretizasse a ideia de publicar nesse idioma delicioso que é o português. Faz um esforço junto dos teus amigos aí».
Até agora, em vão.
Numa das visitas que Blanca Reyes lhe fez, a polícia política permitiu que Raúl Rivero observasse, durante cinco minutos, os seus livros, publicados em diferentes partes do mundo.
Na altura, pediu à mulher: «Diz a todas as pessoas que não me matem, que não se esqueçam de mim».
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VIVA CUBA LIVRE !
Publicado por Killer Sentimental em março 19, 2004 03:26 PM